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  • Na cama com um, a sonhar com outro, apaixonada por um terceiro. Uma conversa com Carmo Afonso
    Jan 17 2026
    Ao longo dos séculos quantos terão contemplado as possibilidades de se livrarem dos seus perversos corpos? Eles mais pelo desejo de que se sentiam adoecer, elas por se verem encurraladas, sendo-lhes dito que os seus corpos carregavam esse ambíguo poder (graça e maldição), enfeitiçando-os a eles. Talvez muito pudesse ter sido diferente se em vez de interrogar o que as mulheres querem, a pergunta fosse feita na negativa: o que não querem? Mas acatar de vez uma recusa é desde logo mais doloroso, e a insistência, o cerco, o acosso, fundou esse prestígio de um sedutor rapace, daquele que entende que é sempre possível negociar um não, criar condições para que este se torne um sim. “Falar, narrar, fabular, assim como lamber, chupar e sugar exigem uma aprendizagem subtil e interminável” (Eliane Robert Moraes), e falar delas é o primeiro dos privilégios do macho, a possibilidade do assalto que começa por pô-lo em palavras, descrevê-las e o que lhes faria, a fazer as rondas, a tocar com os passos esse instrumento chuvoso, para que a língua dê uma volta na fechadura de uma beleza hermética, começando pelo contorno, por alguns traços, da melena lisa com todos os matizes do negro, a “uma pele que é como o fim de uma raça ou o princípio de outra”, “um corpo de criada filipina e adolescente que saiu estilizada dos cruzamentos de raças, de sangue, de toda essa cultura dos sexos, que ignoramos”… Não faltam mitos sobre as fazedoras de chuva, essas figuras cheias de uma deliciosa intimidade feminina, daquele maternal cansaço de amante. Não se livram desse olhar, dessa avaliação, e também por isso Maria Galíndo insiste em fazer notar como há uma continuidade fundadora entre puta e não puta. Mas reivindica esta palavra: “A palavra puta é essencial e representa-nos, abrange do trabalho sexual até à liberdade sexual; a expressão trabalho sexual é também essencial porque obriga-nos a colocar a prostituição na análise histórica dos trabalhos das mulheres”… “Sem trabalhadoras do sexo não há feminismo”, adianta. “Não estou a falar de uma forma de inclusão ‘caridosa’, para as ‘salvar’, mas sim precisamente o contrário: ela, a puta, tem o bastão para remover sexualidades, quebrar mitos, diluir as estruturas de todas as mulheres e é, por isto, um sujeito imprescindível. Explica ainda que, “tal como em qualquer actividade de subsistência, neste trabalho desenvolve-se um conjunto de saberes; a cozinheira, a padeira, a peixeira, a vendedora ambulante, todas desenvolvem saberes próprios do seu ofício, a trabalhadora do sexo faz o mesmo. O negócio não é simplesmente cobrar por sexo”. E prossegue: “A perigosidade e a importância dos seus saberes, o lugar que ocupam na sua relação com o universo masculino, é o que realmente não se quer discutir quando se fala de trabalho sexual. Os saberes das trabalhadoras do sexo têm um carácter explosivo.” Ora, é isto que, segundo Galíndo, faz da puta a “anfitriã da mudança social e uma protagonista central do questionamento da norma patriarcal em torno do corpo e da sexualidade”. Considerando que está em processo uma guerra contra as mulheres, com o aumento da violência machista, sendo que “as trabalhadoras sexuais estão a funcionar como dique, como parede de primeiro impacto dessas violências, como lugar onde essas violências se apresentam como legítimas”, para esta anarco-feminista boliviana”, a puta é uma peça chave uma vez que “ela acumula, mais do que qualquer outra mulher, mais que a esposa, mais que a amante, uma quantidade de conhecimentos sobre a afectividade, a sexualidade, o corpo, as dolências e os complexos do macho”. Seria um desperdício tentar usar da galanteria e do latim tentando intrujar ou converter uma puta numa amante solícita. Ela já ouviu, e, a qualquer combinação de palavras formulada por um príncipe a cavalo no próprio tesão, prefere antes que lhe paguem o preço acordado. Em vez de um elogio, mais vale outra nota. Talvez seja mesmo de preferir que ele se cale. Uma puta dispensa o homem de todo aquele teatro, de toda a falsificação amorosa. Se isso for importante, se ajudar a que se venha de uma vez, fingirá, e, por um preço, fará todos os papéis, irá bater texto, dar-lhe-á as deixas, contribuirá no que for preciso para que ele se comova consigo mesmo, com os seus sentimentos e intenções, com a imagem que julga que pinta. Tem infinitos recursos, a puta. E podemos mesmo antecipar que a tal ficção da “mulher”, dentro de mais uns anos, só venha a ser sustentada pelas prostitutas, isto num momento em que o capitalismo já reconheceu que, para os seus fins, interessa mais uma força de trabalho sem género. Como assinala Silvia Federici, “as áreas de trabalho em que o modelo da feminilidade celebrado (por exemplo na década de 1950 ainda é requerido estão rapidamente a desaparecer. Do ponto de vista do trabalho, ...
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    4 hrs and 18 mins
  • O ponto fraco da realidade. Uma conversa com Rui Cardoso Martins
    Jan 10 2026
    Os mortos não gostam de estar sós. Alguém tem de lhes encher os comedouros, aplacar minimamente os seus apetites. De outro modo a única coisa que o luto pede é vingança, e o sangue só quer beber mais sangue. Contamos histórias também para consolar os mortos. De resto, história e elegia são modos afins, como assinala Anne Carson. A palavra “história” vem de um verbo do grego antigo, que significa “perguntar”, adianta a poeta norte-americana conhecida pela indisciplinada erudição com que revolve a antiguidade clássica. Assim, aquele que pergunta pelas coisas – pelas suas dimensões, peso, localização, humores, nomes, santidade, cheiro – é um historiador. Mas esse perguntar, vinca Carson, não é ocioso. “É quando perguntas por algo que te apercebes de que tu próprio lhe sobreviveste e que, por isso, tens de o carregar contigo, ou de o moldar numa coisa que se sustente por si mesma.” E se Heródoto é tido como o autor dessa função, este refere como tantos objectos e monumentos foram criados de modo a corporizar uma “memória”. O pior em relação aos mortos talvez seja tentar convencê-los de que há um sentido na sua morte, de que devem resignar-se. De algum modo, toda a consciência, mesmo aquela que está já para lá desta vida, continua inconformada, incapaz de aceitar os termos que lhe foram colocados. Poucos são aqueles que aceitam se lhes dissermos que estavam acabados, pois faz parte do impulso dos homens sentirem-se inacabados, e, tantas vezes, a morte só serve para refrescar certos impulsos, expressos em tantas obras, as quais parecem exigir uma vida sem fim. É claro que os mortos, no seu perpétuo desassossego, são reflexos nossos, e escavam em nós esse gosto pela persistência que nalguns momentos consegue ser mais forte do que qualquer perigo. Empreendemos o diálogo com os mortos de modo a criar uma rede de relações tão apertadamente tecida que nenhum desses momentos em que mais nos esforçamos por nos enraizarmos no tempo possa cair do mundo por completo. Os vivos incomodam os mortos no seu sono porque de algum modo não chegam a acreditar em si mesmos. Em épocas de mesquinha depressão, como alguém notou, proliferam esses ruidosos pregadores que se substituem à consciência dos mais fracos, que assim vão anestesiando os seus receios interiores com esse grasnar dos gansos. Outros, vagueiam buscando esses ecos caídos do ar só respirável pelos mortos, só permitindo exageros de imaginação que encontrem algum tipo de ressonância ou correspondência com o passado, como se temessem acima de tudo serem arrancados ao embalo da história. De um modo ou de outro, o presente parece-nos demasiado incerto, como uma hipótese remota, um sonho ou pesadelo meio imbecil, formulado em termos demasiado precários. Há um efeito de perda da espessura, de incapacidade de se situar face à tradição, num tempo em que ninguém reconhece propriamente uma língua-mãe. Estamos capturados numa espécie de orfandade da linguagem, uma vez que, como assinalava Elias Canetti, “a maioria das pessoas, actualmente, já mal domina a fala. Exprimem-se com as frases dos jornais e dos meios de comunicação social e dizem – sem, realmente, serem o mesmo – cada vez mais o mesmo.” A falta de uma experiência obtida dentro de um universo de referências que nos sejam úteis, manejáveis, essa espécie de exílio face a um ambiente propriamente cultural, a uma consequência do lugar e a uma proximidade justificada com os outros, faz de nós seres incapazes de se situarem numa época, esta ou outra qualquer. Daí essa ansiedade que leva tantos a procurarem vincular-se ao poder, mesmo que só seja possível fazê-lo da forma mais degradante, que é ser arrastado, deixar-se subjugar inteiramente, até nas suas crenças e disposições mais íntimas, nos humores, e, particularmente, na mobilização odiosa que este sempre constrói. É uma questão de todos os tempos, mas que, hoje, nos assola constantemente… “O poder sempre conquistou as massas, precisamente porque era poder. E as massas gritavam ‘hurra!’ e ‘viva’, cantavam, gritavam, matavam, deixavam-se matar, e afundavam-se no anonimato. Era uma história velha como a morte. Se as massas conquistassem o poder e – finalmente, por uma vez – o mantivessem, o poder perderia a sua essência e o seu nome, as massas o seu anonimato, a sua falta de humanidade” (Jonathan Sperber). O que rareia por estes dias são o género de figuras que, de um modo quase instintual, rejeitam o poder. “É muito curioso que todos os pensadores, na História da humanidade, que entendem alguma coisa do poder efectivo o aprovam”, nota Elias Canetti. “Os pensadores que são contra o poder mal penetram na sua essência. A sua aversão por ele é tão grande que não gostam de se ocupar com ele, pois temem ficar manchados por ele. A sua atitude tem algo de religioso.” Em sentido contrário, e isto é uma evidência ...
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    3 hrs and 56 mins
  • Cada Narciso tem um lago no bolso. Outra conversa com Changuito
    Jan 3 2026
    Por toda a parte esta lama de palavras a nascer, coisas atravessadas, e, nisto, talvez consigamos já antecipar essas frases sem nexo perante uma catástrofe desconhecida. Viramo-nos para as obscenidades porque estas ainda conseguem espicaçar a carne solitária, mas, de resto, o que podemos saber nós? Andamos doentes com as palavras, com esta sensação de possuir uma parte cada vez mais limitada do seu significado, e há esses ruídos de fundo, o burburinho que nos dá a sensação de estarem atacadas de qualquer coisa, bichadas. Talvez venham daí os usos poéticos, o esforço de dar trinta passos nalguma outra direcção antes de ser atingido por alguma caótica premonição, impor-lhe rimas de modo a dominar a respiração, avistando bárbaros, pedindo este ou aquele sinal. O que era suposto conseguirmos fazer dela? Derrotar o tempo, detê-lo de um modo encantador… derrotar a linguagem e o valor de uma sociedade existente…? Mas pertencemos já a um tempo que soa tão no futuro (dois mil e vinte e seis) e, no entanto, ninguém supunha que pudesse ser algo tão miserável e confuso, e as distâncias se medissem cada vez mais pelo apagamento, sendo que olhamos para as estrelas como sinais de trânsito frios, e os horizontes da ficção-científica deram lugar apenas a formas de usura calculada antecipadamente, enquanto o pequeno ecrã se multiplicou e nos segue por toda a parte, já não vomita o mundo apenas para dentro do quarto, mas, por entre a parada de zombies varada de spots publicitários, acelera tudo e no mais pequeno detalhe somos capazes de pressentir esse calafrio que nos provocam os escombros, a ruína das nossas existências, que cada vez se aproxima mais da superfície. Somos os mortos da guerra que amanhã irá rebentar. E em razão de uma convivência tomada pelo absurdo, no seio desta claridade débil, cada um de nós se desgosta e se entrega a um abandono pouco profundo, andando à deriva, investigando os próprios sonhos e, assim, lemos, escrevemos e conversamos, mas o que nos dizemos verdadeiramente? “Os loucos fazem parte de uma nação qualquer, e a sua linguagem, por incoerente que seja nas palavras, é sempre articulada em sílabas”, nota Edgar Allan Poe. De algum modo um excesso de sensibilidade, uma predisposição para se deixar perder, impede um tipo de levar uma frase até ao fim, enredando-se nela, preferindo não a deixar impor sobre nada o peso de uma sentença. Voltamos ao cuidado de brincar com as coisas… “Acaso nos lembramos de quão facilmente os nossos jogos poderiam decompor, reformar ou tornar a descrever a realidade? O procedimento mágico era sempre e em primeiro lugar a repetição: qualquer criança conhece o fenómeno a que os psicólogos chamam ‘saturação semântica’, onde uma palavra é repetida até parecer esvaziada de sentido e se tornar apenas som – ‘repetir, monotonamente, uma palavra comum, até que o som, por força da repetição insistente, deixe de transmitir qualquer ideia, qualquer que ela seja, à mente’, tal como descreve Poe na sua história Berenice” (Ben Lerner, “Ódio à Poesia”). A maioria de nós orientamo-nos menos pelo significado das palavras do que pelos sinais daqueles em quem aprendemos a confiar. Precisamos da voz dos outros para saber onde fomos ou estamos, aquilo em que nos tornámos ou quem costumávamos ser. Nunca deixámos de jogar ao quente e frio, ao Marco Polo. A razão da grande desorientação em que vivemos prende-se com esta coisa imensa que se interpôs entre nós. Pasolini, nos anos 50, mostrava ainda a sua confiança nas pessoas, afirmando que não se trata de que sejam estúpidas ou más, mas que tendem a ficar surdas. “O estrondo da máquina que puseram em movimento, e que as transporta para o precipício, é de tal forma alto que o choro distante daqueles que se encontram excluídos da máquina porque não têm bilhete nunca chega aos ouvidos ensurdecidos do agrupamento alegre.” Também é difícil levar a sério aqueles que poderiam ter alguma coisa para nos dizer de importante, de transformador, aqueles que são capazes de vislumbrar os contornos dessa coisa inaudita que há muito deixou de nos pedir licença, e que se introduz sem nenhuma timidez, mas de forma avassaladora, impondo-se pela devastação da realidade como a conhecíamos até ali. Aqueles que se dão contam disto, como assinala Poe, são muitas vezes os espíritos que arriscam passar por idiotas. “A faculdade de análise não deve ser confundida com a simples engenhosidade porque, enquanto o analista é necessariamente engenhoso, sucede muitas vezes que o homem engenhoso é absolutamente incapaz de análise. A faculdade de combinação ou construtividade, através da qual se manifesta geralmente esta engenhosidade, (…) apareceu em seres cuja inteligência era limítrofe da idiotia (…)”. Neste primeiro episódio de um ano que de modo nenhum consegue desentranhar-se da couraça enferrujada em que já ...
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    5 hrs and 34 mins
  • O render da guarda mediática. Uma conversa com João Moreira da Silva
    Dec 26 2025
    Quando falarem deste tempo dentro de uns 25 ou 50 anos, o que dirão? Quando não restar já grande coisa, senão alguns detalhes significativos rearranjados e dispostos segundo outra ordem para nós oculta, o que sobressairá de entre a confusão em que vivemos enredados? Que leitura farão dos textos capazes de sobreviverem a si mesmos, à sua perspectiva limitada, libertando um eco capaz de expressar outra coisa além desta percepção da queda, da fuga pela dissipação, a par do desejo de trair as nossas últimas esperanças? O pior castigo deste tempo é ainda a ocultação, a dilapidação constante do que não colabora com a realidade tal como ela se apresenta. Desfeitos pelo ressentimento, deixados à mercê da pior corja que alguma vez pisou esta Terra, o mais triste é nem ver confrontado tudo aquilo que nos degrada intimamente, e impede que a época reconheça o seu elemento trágico. Ortega y Gasset admite algures que possam existir duas classes de épocas históricas: “numas, os homens preocupam-se mais em granjear prazeres do que em evitar dores; noutras, sucede o inverso. Um sintoma económico pode servir de índice para as distinguir: nas primeiras paga-se mais ao jogral, fornecedor de prazeres, do que ao médico, removedor de dores; nas segundas, paga-se mais ao médico do que ao jogral. Nós vivemos resolutamente numa idade desta segunda espécie: possuímos excelentes clínicas e espectáculos detestáveis; inventamos novos analgésicos, mas não diversões. Não aceitamos outra medicina que não seja a mais recente e, em contrapartida, fingimos comprazermo-nos assistindo a um drama onde ainda hoje, como há cinquenta anos, dialogam um marquês e uma adúltera. Ninguém se admire de que esta capacidade de fingir a adaptação a formas que, para nós próprios, perderam já virtude e prestígio, se manifeste em toda a vida contemporânea. Se somos insinceros nos nossos prazeres, como não o seremos em tudo o resto? Inscrevemo-nos em partidos políticos cujos programas já não despertam o nosso entusiasmo, conservamos instituições dissecadas, lemos autores clássicos que não entendemos ou que nos falam do que não nos importa, etc. Os espectáculos em voga permitiriam, pois, reconstruir o resto do nosso carácter, visto que em todos os actos de um ser vivo reside certa unidade de estilo e uma ineludível solidariedade. Quanto mais supérfluos pareçam aqueles mais livres são e, portanto, mais expressivos da personalidade que os executa. Diz-me como te divertes e dir-te-ei quem és.” Mas quem se diverte verdadeiramente por estes dias? Todos rituais penososo e celebrações ou festas a que nos submetemos como antes quando éramos obrigados por algum familiar mais fervoroso a assistir nem que fosse à missa do galo, tudo isso diz muito sobre a própria degradação dessa forma de entretenimento perpétuo a que, por hábito, continuamos a chamar “espectáculo”. Esta sociedade submetida a esse signo apenas é capaz de produzir um fastio absurdo, como aquele que se sabe condenacdo e não consegue retirar qualquer proveito ou gosto nem do que faz nem daquilo que prova ou consome. Continuamos a assinalar o melhor que podemos a passagem do tempo, certos marcos infaustos, efemérides inúteis, mas ninguém consegue deixar de perceber como o próprio tempo está desfeito, e nada o torna mais evidente do que dar por estes jovens enrugados que se apoiam em fragmentos de estátuas deitados por terra cobiçando um prestígio que está de todo ausente do mundo em que nos calhou viver. Tudo são acenos e vénias feitas a algum fantasma do nosso passado, e a arte decaiu na composição de cenas religiosas que apenas trabalham para tentar estancar a sensação de que já nada importa, dessa solenidade oca patrocinada oficialmente, todo esse logro de que nos vemos cercados, e que não passa de uma concessão às fantasias de um quadro geriátrico, um bando de velhos cujo único projecto é construírem os seus túmulos dourados onde pretendem selar junto com eles. A juventude vê o seu preço baixar a cada estação, já não sustenta mitos próprios, e de uma condição do espírito, de uma capacidade de fazer apelo ao sangue e ao fel, bastou-se com as lógicas de aguardar pacientemente pela sua vez, pela herança familiar. Mas, como assinalava Gil de Carvalho, “na viagem de um atro a órbita apodrece. Não temos ninguém capaz de apontar uma rota às profecias, porque vimos a própria inspiração degradar-se, não sabemos como mergulhar nos nossos desejos de forma a instigar em nós aquela cólera que seria capaz de nos libertar de todo este peso. “Pois bem: creio que poucas coisas definem tão bem uma época como o programa dos seus prazeres”, vinca o filósofo espanhol. “A própria ciência não representa com tanta fidelidade a idade em que se produz; porque, se exceptuarmos a filosofia, é antes uma resposta utilitária às urgências do meio do que uma exigência espontânea ...
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    4 hrs and 15 mins
  • Heiner Müller e outros vampiros. Uma conversa com Adolfo Luxúria Canibal
    Dec 19 2025
    Neste assalto à Idolátrica, fomos tomando embalo e o pior hálito que nos foi possível conjurar recitando algumas das piores passagens ou sinais destes anos putrescentes, mas também com aquela divina rudeza e confiança de quem sabe que há mais vida nos pântanos do que nas alturas. No fundo, estamos tomados dessa convicção de que, mesmo se nos deixassem a falar sozinhos, continuaríamos como até aqui, afinal, “para quem escrevemos senão para os mortos omniscientes no pó”, e mesmo reunindo ânimo entre ruínas, restos. Nisto como em tantas outras coisas, aproveitamo-nos do uso que Müller faz do conceito de história, rejeitando a posição do cronista, mas também a do filósofo, e preferindo a do poeta. Não se trata de contar o que se passou, como se passou, nem de procurar enunciar ou retirar uma lição. Como assinala Eva Brenner, trata-se de confrontar “a sua audiência com enunciados, imagens e cenas montadas, justapostas para desmistificar a história. Ao destruir o acto de contar histórias – a explosão do continuum temporal e das suas conexões causais – ele procura afastar o horror do imutável". O gesto poético é então, de certa maneira, esse jogo de fragmentos, a aposta numa incompletude radical que confronta o leitor ou o espectador com a desolação da catástrofe, que os atrai para a ruína desafiando-os a tentar escutar “o renovado zumbido de poderosas asas”. Isto é, a verdadeira experiência histórica só poderá ser a do que se abre ao poema e que dele tenta produzir um sentido, que o completa. A ferramenta do poeta, para Müller, é a memória – “desenterrar os mortos uma e outra vez” – e a utilização, tanto política quanto poética, que faz dela. Num tempo em que todos falam a mesma língua, manipulada, adulterada, pobre e vazia de conteúdo, é importante assinalar as vezes que forem precisas que “a linguagem é mais do que sangue” (Franz Rosenzweig). Ao contrário do que diz a frase de Talleyrand, tantas vezes papagueada, a linguagem não existe para ocultar o pensamento, para que as pessoas ardilosas possam manipular os outros, apenas os papalvos não percebem como a linguagem, na verdade, nos denuncia, e acaba por apontar precisamente aquilo que desejamos ocultar, seja de nós próprios ou dos outros. Tantas vezes a expressão de convicções terríveis, a colagem aos discursos odiosos, não passa de uma forma de certas pessoas procurarem suprir os equívocos, lacunas e incertezas de formações que deixam tanto a desejar. Essas frases de ordem repetidas em tom de declamação, fáceis de decorar e ocas de conteúdo, ou cujo o único sentido é provocar irritação, são a reivindicação de uma participação política por parte daqueles que nunca se deram ao trabalho de pensar como o horror se transmite a partir do momento em que a banalidade se serve dele para coçar o seu tédio. A linguagem fascista não procura estimular nem o pensamento nem a imaginação, mas apenas criar divisões, confundir tudo. A linguagem deixa de ser uma aventura, sendo que, como vinca Steiner, uma linguagem viva é a maior aventura de que o cérebro humano é capaz. Mas uma linguagem que deixa de ser vivida, e é apenas falada, permite introduzir o horror como um elemento constante do nosso quotidiano. Uma das primeiras punições contra os judeus na Alemanha nazi passou por proibi-los de frequentar as bibliotecas. De algum modo, os fascismos actuais também procuram vingar-se daqueles que se exprimem em línguas que arrastam uma série de memórias, que não servem apenas para assinalar a devastação interior desses outros que tão desastradamente as falam. A repetição sistemática de mentiras só pode deturpar a realidade se primeiro for feito um esforço de desvirtuar as palavras, empobrecer os conceitos. Como recorda Victor Klemperer, o nazismo embrenhou-se na carne e no sangue das massas por meio dessas palavras, expressões e frases deturpadas e impostas pela repetição, milhares de vezes, até serem aceites inconsciente e mecanicamente. “As palavras podem ser como minúsculas doses de arsénico: são engolidas de forma despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno faz-se notar.” Este mesmo clima de indiferença, de relativismo absoluto, impregna hoje os debates públicos, as conversas íntimas. É raro contactarmos com esses discursos que nos fazem regressar à língua, essa língua por detrás da qual, dispersa, fraca e de algum modo doente, resiste uma paixão de quem anseia curar-se de todo este veneno. E se os anúncios que nos cercam e moem os nervos são anúncios de nada, se são cada vez mais constantes esses elementos venenosos que infectam os idiomas, que autorizam a maior violência a coberto de todas as distracções e da indiferença geral, se mesmos os artistas e pensadores não exprimem nada que signifique um verdadeiro risco, vimos lembrar este poeta e dramaturgo que em vida se ocupou-se ...
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    3 hrs and 22 mins
  • Ama como a estrada termina. Outra conversa com Joana Matos Frias
    Dec 13 2025
    No pensamento selvagem que é atributo da poesia não há universo natural. Tudo deve ser inventado, resistindo de modo fulgurante mas temporário num espaço e num tempo rarefeitos por passos de magia que abrem margem a uma desconfiança magnífica, a uma forma de crítica radical que não admite já que nada seja estático. Ali o que há é uma estratégia de luta generalizada, um desafio lançado aos limites. Há uma promessa absurda nesse hábito de fazer dela uma função constante. Fazer-se cada vez mais estranho numa terra que começara por nos ser familiar. Se a poesia nos encaminha para as zonas de maior diferenciação expressiva, podemos admitir que a poesia é uma ficção da linguagem, um modo inconstante de se propor, fazer bifurcar o tempo e os caminhos que transitamos. Ali as fronteiras são lábeis, damo-nos a possibilidade de experimentar os ritmos, assumir uma responsabilidade apenas no modo como estes fazem emergir as formas, permitindo-nos aceder às zonas ocultas dessa cidade que durante séculos se amuralhou “por detrás da fábula de um mundo objectivo, verídico e necessário”. Como escreve Eduardo Pellejero, “tal é o sentido profundo da poética, a vocação da sua procura sempre retomada, do seu destino incerto. Esse vazio (esse excesso) que nos move a continuar a escrever quando já parece ter-se esgotado o que havia para dizer, e que nos convida a sonhar (a lutar) quando a claridade meridiana da linguagem adelgaça (até desaparecer) a sombra das coisas, a astúcia da razão, e a resistência da carne.” Começamos por invejar a realidade e, depois de tantas aproximações, a nossa compreensão atinge um nível de saturação e passa à sua crítica, acabamos em alguns momentos por rechaçá-la, antes de voltarmos a reconciliar-nos com ela e a invejá-la de novo. No entanto, não há nada que nos reconduza de forma mais decisiva à inércia e a uma esclerose das faculdades imaginantes do que estar muito seguro sobre o que possa ser a realidade, sobre os limites da produção do real, essa que acaba por ser a forma mais estúpida de consentir nos enredos e coerções que procuram desgastar-nos e reforçar a sensação de impotência, colocando-nos à margem da investigação no campo das possibilidades que a poesia abre. Em vez de estarmos lançados no terreno dessa “antropologia especulativa” (Juan José Saer), permitimos que sejam os valores instituídos a impor-se à nossa vida imaginária. Hoje é mais válida do que nunca aquela interrogação formulada por Eduardo Guerra Carneiro num dos seus poemas em prosa: “Aqui, entre nós, quem nos conta o percurso, divino ou nocturno dos ladrões de fogo? Quem inventa a história das mil e outras noites?” Na sua obra essencial em que procura interrogar os elementos decisivos na estrutura da lírica moderna, o filólogo e teórico da literatura alemão Hugo Friedrich, incita-nos a redescobrir a poesia moderna na sua capacidade de corroer e abrir gretas na totalidade, instalar uma suspeita, aconselhando o leitor a habituar o olhar à obscuridade que recobre esta função, a qual alimenta uma tal desordem nos modos de nomear e ordenar o mundo a ponto de cultivar em nós o sentido da falta, uma forma negativa e até cruel de trabalhar a esperança. “Em toda a parte observamos, nela, uma tendência a manter-se o mais distante possível da comunicação de conteúdos unívocos. [...] Quando a poesia moderna se aproxima de realidades coisas ou homens, não as trata de modo descritivo, nem com o calor da familiaridade do ver e do ouvir; transporta-as para a esfera do não-familiar, do estranho, da deformidade. A poesia já não quer ser medida por aquilo que comumente se chama realidade, ainda que como base de lançamento para a sua liberdade assuma em si alguns resíduos desta. A realidade é desvinculada da ordem espacial, temporal, objetiva e espiritual. [...] Dos três comportamentos possíveis da lírica – sentir, observar, transfigurar, é este último que predomina na poesia moderna, tanto na visão do mundo quanto na linguagem. Segundo uma definição haurida da poesia romântica (e erroneamente generalizada), a lírica é considerada muitas vezes a língua do sentimento, da alma individual. O conceito de sentimento implica a ideia de uma distensão mediante a entrada em um ambiente espiritual que até o mais solitário dos homens compartilha com todos aqueles que sabem sentir. É precisamente essa ‘facilidade’ comunicativa que é deixada de lado pela poesia moderna. Ela prescinde da humanidade no sentido tradicional, assim como da ‘experiência vivida’, do sentimento e muitas vezes até do Eu pessoal do poeta. Este não participa de sua representação como indivíduo privado, inteligência poetante, como 'operador' da linguagem, como artista que exercita os actos metamorfoseadores da sua fantasia imperiosa – ou do seu irreal modo de ver – sore uma matéria qualquer, pobre de significado.” ...
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    3 hrs and 24 mins
  • A caderneta de cromos da cultura portuguesa. Outra conversa com Vítor Belanciano
    Dec 5 2025
    No dia em que a Sonae cortar a benemérita linha de vida que estende ao jornalismo português e o Público deixar de ir para as bancas, o Ípsilon ainda poderá fazer o pitch à Panini, safando-se de forrar o túmulo do jornalismo cultural, e com aquele sebo de rodízios que lhe é característico ser-lhe-á dada a oportunidade de produzir as várias temporadas do álbum de família da enxofrada cena cultural a que vamos tendo direito. Irradiando por meio de um sinal cada vez mais débil e para uma comunidade desintegrada ou submetida às lógicas de reprodução acríticas do consumo de massas, este suplemento vive graças à lógica de agenciamento das “figuras, figurantes e figurões” que compõem esse quadro, e o sistema agradece-lhe pela forma como consegue estabilizar tudo a um mesmo nível, naquela linha flutuante e deambulatória com que se ligam os dias e os juízos, segundo uma pretensão cosmopolita, fornecendo as fantasias em regime prêt-à-porter para a afectação de uma pose nos adros do nosso pequeno recreio social onde essas coisas contam. A propósito daquele número especial, que não deixou de nos fornecer matéria para algumas facécias, o que se mostra mais persistente nestas iniciativas é a jactância triunfalista. Dá a sensação que sempre que há a necessidade de corresponder a uma efeméride, nestas ocasiões só arregaçam as mangas para melhor se porem a cheirar a merda acumulada nas cavalariças. O que impressiona acima de tudo, e particularmente nos artigos que encenam uma panorâmica retrospectiva sobre o percurso do suplemento e o colam à própria evolução da cultura portuguesa no primeiro quartel deste século, que nunca chega a ser alvo de qualquer análise ou interrogação, é esse triunfalismo implicitamente e inutilmente publicitário. Aquilo que parecem ignorar estes promotores, tão habituados a despejar tinta sobre tudo o que prometa farra, é que o poder não precisa de propagandistas. “Se é poder”, assinala Alfonso Berardinelli, “impõe-se por si e, de facto, cada um já dele tomou nota”. “Alinhar-se com aquilo que se impõe é uma forma vácua ou perversa de moralismo”, adianta o crítico italiano. Em vez de uma capacidade de produzir um agenciamento de enunciados, de propostas que desafiem as expectativas, demasiadas vezes este suplemento parece resignar-se a uma postulação face ao que já se sabe. Daí a propensão para se auto-congratular por uma série de “apostas ganhas”, formulando mais umas quantas para seguir com esta lógica de casino. Se David Pontes reconhece que há hoje “sectores inteiros da cultura que correm o risco de desaparecer no silêncio”, e reforça que “sem eco não há cultura que, por falta de impacto, sobreviva”, depois, reclama para aquele suplemento um papel de enorme relevância no esforço de “relatar, descobrir e criticar expressões artísticas minoritárias, porque sabe que elas fazem parte da expressão máxima da diversidade humana”. Assim, é só por este suplemento desempenhar o seu trabalho de forma “quase solitária” que vimos retrocedendo, vendo a dificuldade de abrir o campo de possibilidades actuais de repensar este tempo, escapar do mundo que existe, criando as condições para a expressão de outros mundos possíveis. Com uma única excepção entre os textos que integram este volume, não há qualquer sinal de uma autocrítica, e mesmo o tom de certos artigos, quando parece neutro, é sempre promissor, tranquilizador e moderadamente profético. Só António Guerreiro abre um parêntesis em que vem denunciar que “o jornalismo cultural implodiu”: “pôs-se à mercê da publicidade cultural, com a qual passou a confundir-se” (…); “cúmplice da indústria cultural (dirá mesmo, com toda a convicção, que é impossível conquistar um lugar exterior a ela) e, por conseguinte, inscreve-se na sua lógica”. Ainda acrescenta que este género quase deixou de ser nomeado porque perdeu o seu antigo poder de irradiação, acabando por se submeter: “A ele sobrepôs-se a divulgação cultural, num contexto em que os objectos e os acontecimentos culturais aspiram sobretudo a ser divulgados, publicitados, recomendados.” Quanto às restantes análises, as poucas vezes que mantêm um compromisso de leitura das convulsões da época, acabam por reconhecer que o novo milénio não trouxe verdadeiramente descobertas novas, nem produziu obras que pareçam características de uma nova época. A maior e mais sintomática novidade é quantitativa: há muitíssimos produtores, “novos criadores” que se limitam a recombinar ou retocar velhas fórmulas, de forma cada vez mais contingente. Assim, os actores culturais, mais prolíficos do que nunca, são coagidos a dar provas de vida e submeterem-se aos protocolos do espectáculo de modo a obterem o selo e o género de aclamações que significam uma extensão do crédito a essa espécie de agonia em que vão resistindo as ...
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  • Escrever a história em mortalhas de cigarro. Uma conversa com Ricardo Noronha
    Nov 28 2025
    Fala-se muito de liberdade por estes dias. A todos os propósitos, celebra-se essa estafada ideia de que se gozam hoje conquistas feitas a grande custo pelas gerações que nos antecederam, mas talvez fosse importante colocar a mesma pergunta certa vez feita por Foucault: “Qual é o campo actual das experiências possíveis?” Se a liberdade se tornou meramente hipotética, uma espécie de abstracção, algo que partimos do princípio que gozamos, podemos ser levados a prescindir de testar essa convicção. Talvez nunca tantos se tenham saciado dessas promessas, sendo isso o suficiente para não irem mais longe nem testarem a sua disposição moral divergindo desse grande quadro de inércia que nos serve de referência. Que potência exercemos diariamente, nem que seja numa condição virtual, questionando o enredo a que estamos submetidos? Talvez a liberdade se tenha tornado uma noção demasiado abstracta, sendo esse o principal elemento de dissuasão, quando tudo se processa num nível hipotético. De facto, somos todos muitíssimo livres. Mas talvez fôssemos menos se realmente passássemos dos princípios aos actos. No entender de Kant a liberdade “é a autorização para não se obedecer a nenhuma outra lei exterior que não sejam aquelas às quais pude dar o meu assentimento”. Se partirmos daqui podemos reconhecer que a tal liberdade potencial contrasta com a falta de ânimo para oferecer resistência às orientações que nos vão seduzindo, convertendo, coagindo. Talvez Gramsci fosse mais livre na prisão do que a maioria de nós o somos no nosso dia-a-dia. Leia-se o que Italo Calvino escreveu a propósito da edição das "Cartas da Prisão" do fundador do Partido Comunista de Itália: "[As Cartas] têm as características do livro de memórias e do grande romance: a sua amplitude e o cruzamento de mundos e de temáticas. O prisioneiro revolucionário analisa minuciosamente todas as pequenas manifestações da vida que consegue captar a partir do sepulcro da sua cela: os pardais amestrados, as flores da chicória, as fotografias das suas crianças. Ele analisa qualquer fenómeno cultural, do idealismo crociano aos romances policiais, formulando interpretações novas e úteis, utilizando também todo o seu património de memórias regionais, as lendas, os costumes, os dialectos da sua Sardenha, que revive com um gosto só aparentemente anedótico.” A liberdade está longe de ser um estado natural, e daqui decorre que esta tenda a esboroar-se assim que não haja um constante esforço de a levar a efeito. A lógica do poder passa sempre por produzir a timidez daqueles que lhe estão submetidos, e é evidente que, à medida que a revolução começa a desvanecer-se, a cair na rotina, deixa de vigorar como um acontecimento, atestando uma virtualidade que não pode ser esquecida. Hoje, todos os esforços no sentido de celebrar “as conquistas de Abril” fazem por substituir os cravos por rosas brancas, limitar o alcance da revolução e moderar o seu ímpeto, retirando-lhe toda a actualidade e força anunciadora de um desejo que está ainda por cumprir-se. O signo que tem vindo a afirmar-se cada vez mais e que pretende fazer-nos renunciar às experiências que foram possíveis durante o período de dezoito meses do processo revolucionário é o do 25 de Novembro, que, como assinala Ricardo Noronha, “assumiu a forma de um evento fantasmagórico porque os seus actores – os vencedores como os vencidos – projectaram sobre os acontecimentos tantas camadas discursivas que a sua interpretação se tornou impossível sem um laborioso trabalho filológico e arqueológico”. E acrescenta que este é também um evento fantasmagórico “porque a sua evocação quebra a ténue membrana que separa o passado do presente, transportando em si um juízo sobre tudo o que antecedeu e se sucedeu àquelas horas tão saturadas de ocorrências, condensando em si a história de todas as revoluções e contrarrevoluções”. Para Noronha a evocação desta data “assombra ainda os cérebros dos vivos, servindo a um tempo enquanto fábula moral e mito fundador, efeméride comemorativa e epígrafe fúnebre”. Na verdade, e contrariamente ao que diz a direita, não foi a possibilidade de uma ditadura de sinal contrário ao do Estado Novo que foi afastada, mas a própria construção de um repertório de acção política, num raro momento na nossa história em que ganhou expressão o poder popular através de inúmeras acções de democracia directa. Durante aquele período que, de um golpe de Estado militar, fez uma verdadeira revolução, o que se viu ganhar corpo foi “uma vaga tumultuosa de contestação, insubordinação, auto-organização e radicalização, que não só empurrou o Movimento das Forças Armadas para lá dos seus propósitos iniciais como abalou profundamente os alicerces do capitalismo português”, escreve Noronha em “A Ordem Reina sobre Lisboa”. “Durante dezoito meses, ...
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