Cada Narciso tem um lago no bolso. Outra conversa com Changuito cover art

Cada Narciso tem um lago no bolso. Outra conversa com Changuito

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Por toda a parte esta lama de palavras a nascer, coisas atravessadas, e, nisto, talvez consigamos já antecipar essas frases sem nexo perante uma catástrofe desconhecida. Viramo-nos para as obscenidades porque estas ainda conseguem espicaçar a carne solitária, mas, de resto, o que podemos saber nós? Andamos doentes com as palavras, com esta sensação de possuir uma parte cada vez mais limitada do seu significado, e há esses ruídos de fundo, o burburinho que nos dá a sensação de estarem atacadas de qualquer coisa, bichadas. Talvez venham daí os usos poéticos, o esforço de dar trinta passos nalguma outra direcção antes de ser atingido por alguma caótica premonição, impor-lhe rimas de modo a dominar a respiração, avistando bárbaros, pedindo este ou aquele sinal. O que era suposto conseguirmos fazer dela? Derrotar o tempo, detê-lo de um modo encantador… derrotar a linguagem e o valor de uma sociedade existente…? Mas pertencemos já a um tempo que soa tão no futuro (dois mil e vinte e seis) e, no entanto, ninguém supunha que pudesse ser algo tão miserável e confuso, e as distâncias se medissem cada vez mais pelo apagamento, sendo que olhamos para as estrelas como sinais de trânsito frios, e os horizontes da ficção-científica deram lugar apenas a formas de usura calculada antecipadamente, enquanto o pequeno ecrã se multiplicou e nos segue por toda a parte, já não vomita o mundo apenas para dentro do quarto, mas, por entre a parada de zombies varada de spots publicitários, acelera tudo e no mais pequeno detalhe somos capazes de pressentir esse calafrio que nos provocam os escombros, a ruína das nossas existências, que cada vez se aproxima mais da superfície. Somos os mortos da guerra que amanhã irá rebentar. E em razão de uma convivência tomada pelo absurdo, no seio desta claridade débil, cada um de nós se desgosta e se entrega a um abandono pouco profundo, andando à deriva, investigando os próprios sonhos e, assim, lemos, escrevemos e conversamos, mas o que nos dizemos verdadeiramente? “Os loucos fazem parte de uma nação qualquer, e a sua linguagem, por incoerente que seja nas palavras, é sempre articulada em sílabas”, nota Edgar Allan Poe. De algum modo um excesso de sensibilidade, uma predisposição para se deixar perder, impede um tipo de levar uma frase até ao fim, enredando-se nela, preferindo não a deixar impor sobre nada o peso de uma sentença. Voltamos ao cuidado de brincar com as coisas… “Acaso nos lembramos de quão facilmente os nossos jogos poderiam decompor, reformar ou tornar a descrever a realidade? O procedimento mágico era sempre e em primeiro lugar a repetição: qualquer criança conhece o fenómeno a que os psicólogos chamam ‘saturação semântica’, onde uma palavra é repetida até parecer esvaziada de sentido e se tornar apenas som – ‘repetir, monotonamente, uma palavra comum, até que o som, por força da repetição insistente, deixe de transmitir qualquer ideia, qualquer que ela seja, à mente’, tal como descreve Poe na sua história Berenice” (Ben Lerner, “Ódio à Poesia”). A maioria de nós orientamo-nos menos pelo significado das palavras do que pelos sinais daqueles em quem aprendemos a confiar. Precisamos da voz dos outros para saber onde fomos ou estamos, aquilo em que nos tornámos ou quem costumávamos ser. Nunca deixámos de jogar ao quente e frio, ao Marco Polo. A razão da grande desorientação em que vivemos prende-se com esta coisa imensa que se interpôs entre nós. Pasolini, nos anos 50, mostrava ainda a sua confiança nas pessoas, afirmando que não se trata de que sejam estúpidas ou más, mas que tendem a ficar surdas. “O estrondo da máquina que puseram em movimento, e que as transporta para o precipício, é de tal forma alto que o choro distante daqueles que se encontram excluídos da máquina porque não têm bilhete nunca chega aos ouvidos ensurdecidos do agrupamento alegre.” Também é difícil levar a sério aqueles que poderiam ter alguma coisa para nos dizer de importante, de transformador, aqueles que são capazes de vislumbrar os contornos dessa coisa inaudita que há muito deixou de nos pedir licença, e que se introduz sem nenhuma timidez, mas de forma avassaladora, impondo-se pela devastação da realidade como a conhecíamos até ali. Aqueles que se dão contam disto, como assinala Poe, são muitas vezes os espíritos que arriscam passar por idiotas. “A faculdade de análise não deve ser confundida com a simples engenhosidade porque, enquanto o analista é necessariamente engenhoso, sucede muitas vezes que o homem engenhoso é absolutamente incapaz de análise. A faculdade de combinação ou construtividade, através da qual se manifesta geralmente esta engenhosidade, (…) apareceu em seres cuja inteligência era limítrofe da idiotia (…)”. Neste primeiro episódio de um ano que de modo nenhum consegue desentranhar-se da couraça enferrujada em que já ...
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