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T05#03 - Passa lá em casa na quarta-feira!

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Este episódio reconstrói a formação, o desenvolvimento e a transformação da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, grupo que se reuniu entre 1902 e 1908 na casa de Sigmund Freud, em Viena, e que deu origem à institucionalização da psicanálise. A partir de um convite informal, quase doméstico, o episódio acompanha como um pequeno círculo de médicos e intelectuais passou a constituir um novo campo teórico e clínico, marcado desde o início por intensas trocas intelectuais, conflitos pessoais e disputas institucionais.

O percurso começa situando Freud no início do século XX, em um momento de grande produtividade intelectual, mas ainda de reconhecimento restrito. Embora já tivesse publicado suas obras fundamentais, Freud permanecia relativamente isolado no meio acadêmico vienense, com um público reduzido e escassa aceitação institucional. As reuniões das quartas-feiras surgem, nesse contexto, como espaço de ressonância intelectual e afetiva, reunindo médicos insatisfeitos com o pessimismo terapêutico da medicina vigente e interessados em abordagens dinâmicas do sofrimento psíquico.

O episódio descreve a composição inicial do grupo, seus rituais e sua atmosfera peculiar: a apresentação de textos, as discussões longas, o consumo ritualizado de café e charutos e a presença de Freud como figura central, ainda que não exclusiva. Ao longo dos anos, o grupo cresce e se diversifica, incorporando médicos, editores, críticos culturais e leigos, ampliando progressivamente o alcance da psicanálise para além da clínica médica.

Um ponto decisivo ocorre em 1906, com a chegada de Otto Rank e a introdução sistemática da documentação das reuniões. A escrita transforma a dinâmica do grupo, tornando visíveis tensões, rivalidades e disputas de autoridade. Entre 1906 e 1908, as discussões tornam-se mais formais e mais hostis, revelando divergências profundas quanto aos métodos, aos objetivos e à identidade da psicanálise. Conflitos envolvendo figuras como Wilhelm Stekel e Alfred Adler ajudam a estabelecer limites implícitos sobre autoridade clínica, divergência teórica e liderança.

Paralelamente, a Sociedade passa a ser observada por visitantes estrangeiros, como Max Eitingon, Karl Abraham e Ernest Jones. Suas impressões críticas revelam um grupo heterogêneo e pouco coeso, mas também sinalizam o início da internacionalização da psicanálise. A entrada em cena de figuras como Abraham, Jones e Sándor Ferenczi marca a expansão do movimento para além de Viena, com a fundação de novas sociedades e a consolidação de redes internacionais.

O episódio se encerra com o momento de institucionalização em 1908, quando a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras se transforma oficialmente em Sociedade Psicanalítica. A mudança de nome, as tentativas de reforma interna e a participação no Congresso de Salzburgo assinalam o fim de um ciclo e o início de outro. O que começou como um encontro informal na casa de Freud torna-se, em poucos anos, uma instituição reconhecível, capaz de sustentar a psicanálise como campo organizado de saber e prática.

Ao acompanhar esse percurso, o episódio evidencia que a psicanálise nasce não apenas de conceitos, mas de encontros, conflitos, afetos e escolhas institucionais, revelando desde sua origem a tensão entre abertura criativa e necessidade de organização.


Bibliografia sugerida:

MAKARI, George. Revolução em mente: a criação da psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2024.

GAY, Peter. Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Os Primeiros psicanalistas: Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena (1906-1908)

CAROPRESO, Fátima; COROMBERG, Renata U. Mulheres pioneiras na psicanálise: uma antologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.

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